A polêmica sobre o aquecimento global e as limitações da ciência na ordem do capital

Nos dias atuais, dificilmente alguém teria a pachorra de se colocar contrário a tese de que a Terra estaria passando por alterações substanciais na sua atmosfera. Transformações estas que estariam diretamente ligadas ao fenômeno do aquecimento global, a tese de que a temperatura do planeta estaria aumentando devido às mudanças ambietais provocadas pela própria humanidade (chamam isso de causa antropogênica). Quando o questionamento ocorre, há um total execramento da figura que se posicionou. Por parte do pensamento de direita, nem tanto, mas da esquerda…

Boa parte da esquerda convenciou a ideia de que a luta por uma sociedade para além da classes sociais não pode deixar de ter uma postura ecológica. Afinal, é a ordem do capital a forma societal que mais aprofundou a destruição da natureza, graças a sua voracidade em consumir, que a leva a uma produção completamente desregulada das reais necessidades humanas. Não haveria como separar a crítica do capital da crítica ecológica. Tanto é assim que a todo o momento que aparecem os críticos da teoria do aquecimento global, o recurso mais comum é apontar que a pessoa que se pronuncia possui diversos vínculos com grupos econômicos cuja produção é grande consumidora de matérias-primas, ou seja, grande destruidora da natureza.

Mas vamos inverter o movimento de questionamento, só por curiosidade: não estariam os teóricos do aquecimento global antropogênico também de mãos dadas com o grande capital? Afinal, os relatórios climáticos que costumam afirmar e reafirmar a tese a todo momento estão ligados ao Framework convention on climate change, grupo organizado pela ONU para discutir o tema, e que foi responsável pela feitura do Protocolo de Kyoto. Para além das preocupações com a produção industrial e seus efeitos no meio-ambiente, o Protocolo criou um mecanismo financeiro bastante lucrativo, os tais créditos de carbono, supostamente responsáveis como suporte para a também suposta perda de produtividade ocasionada pela mudança no padrão produtivo posto em xeque. Como ignorar um conjunto de informações sobre um tema demasiadamente importante como o da mudança climática usando como desculpa o suporte dado pelo capital e aceitar outro conjunto, também ligado aos interesses capitalistas, por ser simplesmente consagrado?

Para além de toda a discussão específica com relação ao tema, que dificilmente conseguiria tratar com qualidade (neste sentido, como fonte mínima de informação vale consultar pelo menos uma referência de cada posição, a favor da antropogenia e contra ela), vale ressaltar como nós, não especialistas na área, estamos à mercê de interesses bastante diversos. E não é difícil imaginar que essa situação aconteça com outros temas em todas as outras áreas do saber científico. E antes que digam ser este um procedimento intrínseco aos grupos científicos, devo ressaltar que não. A ciência, enquanto complexo da atividade humana voltada para a compreensão da realidade através do uso da razão (da tentativa de reconstrução abstrata do movimento da realidade), não pode abrir mão, ao cumprir esse seu caráter, do diálogo e da total transparência de seus procedimentos analíticos. A ciência que é vista atualmente, enclausurada em grupelhos que dificilmente passam da mediocridade, da repetição daquilo que já foi realizado, sem apresentar nenhuma inovação considerável, não é outra senão do que um campo da atividade humana atacada pela lógica do capital, que compreende a razão de maneira técnica, sem ser capaz de realizar um processo de abstração decente, e que por isso mesmo não é capaz de inovar.

Eis aqui mais um motivo para superarmos a sociedade do capital!

Anúncios

5 Comentários

  1. Problemática a sua argumentação, meu caro. Concordo quanto à instrumentalização técnica da ciência, mas quanto a isto é preciso traçar as diferenças sociológicas (não apenas epistemológicas) entre ciências naturais e ciências sociais. Quanto ao aquecimento global, parece-me que existem três linhas argumentativas principais: 1) as que acreditam no aquecimento global devido a causas humanas; 2) as que acreditam no fenômeno porém devido a causas naturais; e 3) as que simplesmente negam qualquer transformação climática recente. Esta última é uma estupidez e pode ser desconsiderada, uma vez que os dados deixam bem claro o aumento de até 1 grau célcio nos últimos cem anos em função da elevação massiva dos níveis de CO2 na atmosfera. A briga situa-se entre aqueles que atribuem esse aquecimento à atividade humana, e aqueles que não. Eu particularmente acredito que a causa é humana, mas não vou entrar nessa discussão, até porque eu sou leigo. Mas eu quero ressaltar que o debate sobre aquecimento global e sobre sustentabilidade e preservação ambiental é mais antigo do que você faz parecer: o tratado de Kyoto foi o resultado de 20 anos de debates, que tiveram início na década de 1970. E não creio que os créditos de carbono mobilizem tanto interesse econômico assim. Talvez mais do que os créditos, o merchandising da sustentabilidade e da responsabilidade empresarial seja muito mais importante. Ambas são consequências da criação de novos nichos de mercado, abertos com o debate ecológico, mas não a sua causa ou motivação. A indústria capitalista tem necessidade premente e fundamental de poluir e destruir, e não pode substituir esta necessidade por um mercado (mais ideológico do que propriamente econômico) de créditos de carbono. E isso fica muito claro quando se vê a hostilidade com que as elites políticas e econômicas respondem aos apelos pela redução do uso de energia fóssil, ou à própria teoria do aquecimento global antropogênica.

    1. Sim, João, com certeza há diferenças com relação ao processo de instrumentalização das ciências. Não toquei nelas para não alongar demais a redação e também para não perder o foco do problema principal, embora reconheça que esse procedimento possa ter empobrecido o texto a ponto de criar a condições de uma leitura contrária a minha intenção. O problema, como você bem apontou, não ficou apenas nesse primeiro ponto: parece que minha escrita também deixou a desejar com relação ao meu posicionamento diante do debate em si. Concordo contigo quando a disposição destas três posições, e concordo também com o rechaço da última.

      Já com relação ao Tratado de Kyoto, realmente confesso que fui indolente com relação o seu processo de constituição histórica, e agradeço demais pelo toque, mas não falei em substituição do caráter destrutivo do capital pelo mercado dos créditos de carbono. Se eu me fiz entender desse jeito, que esteja então aqui a ratificação do erro: eu me referi ao mercado dos créditos como uma espécie de muleta dessa condição destrutiva do capital; uma resposta dentro das necessidades e do limites impostos ao capitalismo, de um lado, pela entrada num período agudo de crise e, de outro, por toda a pressão exercida com relação a agenda ecológica, sem contar o contraponto socialista e toda uma série de determinações que fica difícil expor aqui.

      E, pra finalizar, no caso da postura antiecológica das elites, se é certo que elas negam com veemência uma mudança na matriz energética e discordam da tese da teoria do aquecimento global antropogênica, não acredito que apenas essa postura sirva para negar a possibilidade de que essa teoria, especificamente, possa conter equívocos, e equívocos graves. Mas a nossa condição de leigos no assunto limita por demais a possibilidade de uma superação desse debate. E foi esse problema que eu quis enfatizar.

      Agradeço pelo comentário e pela contribuição com o tema! Abraço, João!

      1. Perfeito. Ficou mais clara a sua posição agora. Mas vou seguir discordando com você em um aspecto (no resto estamos de acordo): não me parece tão duvidosa e suspeita assim a teoria da causa antropogênica do aquecimento global. Esse debate me lembra o debate em torno dos malefícios do cigarro (anos 60?), que envolvia precisamente cientistas de um lado e cientistas de outro. De qualquer forma, a mim parece que as evidências são conclusivas quanto aos impactos ecológicos da atividade industrial. Eu que lhe agradeço, camarada! É sempre bom e instrutivo manter uma discussão nesses termos.

  2. O Sr. me explicaria sucintamente a sua definição para “sociedade do capital”?

    1. Então, Jovem, por “sociedade do capital” eu estou designando a sociedade que está imersa pela lógica do lucro, fundamentada numa economia industrial. O capital é, toscamente falando, nada mais do que o lucro extraído da produção de mercadorias revertido na reposição constante e cada vez mais ampliada desse processo. Como consequência, o processo como um todo acaba se tornando, digamos, viciado: ao invés da produção gerar bens que satisfaçam as necessidade de consumo das pessoas, ela é orientada para a realização do lucro, que dificilmente corresponde as necessidade humanas mais básicas.

      Bom, essa foi uma resposta suscinta, supondo que você tem alguma familiaridade com o tema. Caso tenha me equivocado, e minha definição não tenha obtido sucesso, não fuja! Me questione novamente que darei uma resposta melhor, mas te digo que ela tende a ser tudo, menos suscinta. E esqueça essa história de senhor, me chame pelo meu nome ou por “você”, mesmo! Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: