Sobre a batalha das ideias

O Luis Nassif soltou uma postagem extremamente polêmica sobre a questão do financiamento de pesquisas nas ciências sociais, que exaltou uma discussão já há muito intestina dentro desse campo do saber: qual o destino do conhecimento criado dentro da academia? Essa questão traz consigo outra velha querela sobre a possibilidade, ou não, de equilíbrio das convicções políticas com a atividade da ciência, supostamente neutra na batalha ideológica. Pois bem, longe de poder resolver tal sorte de problemas, soltarei aqui algumas observações primárias pra tentar engrossar o caldo desse debate.

Eu sou da opinião, assim como parece ser a do Nassif, de que não existe essa de neutralidade científica, e de que a atividade do cientista é atravessada, e acaba por atravessar, questões políticas, independentemente da vontade do sujeito pesquisador. Porém, isso não pode significar a compreensão de que política e ciência sejam a mesma coisa. Enquanto que a política pode ser definida como a esfera do exercício das convicções que as pessoas possuem sobre a realidade, momento no qual não devem haver maiores dúvidas, na esfera da ciência o que impera é justamente o questionamento sobre a realidade, e não uma afirmação positiva sobre ela.

No entanto, cientista e político não podem, durante os diversos momentos de sua vida, se manterem plenamente convictos ou questionadores. Aliás, cientista e político são apenas divisões resultantes da divisão cada vez mais especializada do trabalho. Enquanto seres humanos, tanto o cientista quanto o político, assim como o sorveteiro e a executiva, não estão submetidos de maneira absoluta às esferas a pouco citadas. Todos nós exercemos ações em ambos os âmbitos, como, também, em outros que não foram citados atá agora, e que possuem características ímpares, como a esfera da estética e a do trabalho. O exercício de cada postura, ou melhor, o momento em que uma delas se torna predominante varia de acordo com as circunstâncias, de acordo com a necessidade determinada pelas relações ativadas no momento.

Agora, reconhecer o momento em que o predomínio de uma sobre a outra deve acontecer é algo extremamente complicado. Essa situação tem consequências bastante importantes nas nossas formas de compreender o mundo: para o cientista, grandes serão os riscos de cair em dogmas (e os marxistas sempre levam esta pecha), e para o político a tendência de imobilismo e apatia se apresenta com grande intensidade. Tentar controlar isso de maneira institucional, como quer Nassif, é algo perigoso, pois joga todo o peso da política pra cima da ciência, correndo-se o risco de podar a criatividade científica, um dos elementos mais importantes (embora não seja o único) do estabelecimento da dúvida.

Porém, o tipo de produção em voga na academia, ao qual Nassif se refere, tende a ser justamente isso que ele descreve como masturbação sociológica; um exercício do saber que não leva em consideração qualquer postura crítica com relação a realidade, entendendo seu caráter crítico como nada mais do que uma orientação humanista, que nega e tenta superar qualquer obstáculo a constituição plena da generidade humana. Graças a grande influência do ideário pós-moderno, que pinta com cores libertárias a corrente de pensamento mais reacionária elaborada pela humanidade em toda sua história, a saber, o irracionalismo, as pesquisas se tornam completamente subjetivas. Nesta condição, tanto o seu valor quanto a sua avaliação não podem encontrar pé na realidade. Ou melhor, elas encontram essa base concreta, mas não no lugar em que as pessoas que se colocam a pesquisar elas imaginam encontrar, na vida plena e cheia de determinações; elas encontram essa base em seus próprios umbigos, na avaliação de suas teoriazações de acordo com seus critérios, e não as contrapondo contra aquilo que deveria ser seu objeto de estudo, a realidade.

Assim, nos encontramos nesse dilema: uma situação real de produção científica antihumanista, pobre, que parece encontrar como única resposta para sua solução a intervenção institucional, que também não parece ser uma solução satisfatória, capaz de gerar efeitos bastante nocivos na atividade da ciência. Surge aqui aquela pergunta já tradicional: que fazer?

De partida, acredito que sua solução não se encontra simplesmente no campo científico, através daquele manjado processo de avaliação realizado por nossos “pares”. Mas também ignorar por completo a esfera da ciência seria abrir mão de uma das características mais importantes da nossa forma de ser particular, calcada na condição social, distinta da do restante da natureza, que é a capacidade de criar o novo através de um processo que conjuga ação e pensamento. É preciso garantir o equilíbrio entre as esferas da convicção e do saber, e não eliminar uma ou outra. Se as intituições e correntes de pensamento atuais não dão conta do recado, ou seja, não garantem tal equilíbrio e, por sua vez, a continuidade da condição social humana, é preciso criar novos elementos que superem as condições da ordem atual. Considero extremamente difícil precisar quais seriam esses novos elementos. Apenas o exercício direto da prática criadora do novo poderia deixar claro o que poderia vir a ser essa novidade. Mesmo assim, é possível dizer que a solução pode surgir, com maior vigor, na criação de uma nova cultura, capaz de gerar elementos novos de sociabilidade capazes de trazer à tona a correlação adequada entre ciência e política.

Só assim, creio eu, o exercício da convicção política pode (e que se ressalta aqui essa dimensão da possibilidade) se tornar algo positivo, livre de dogmatismos. A atividade do saber, sempre pautada na dúvida, garantiria pra ação prática um caráter autocrítico (ou autoreflexivo). A autocrítica não corresponderia a um exercício meramente reflexivo, feito tomando como parâmetro aquilo que pensamos ser ideal. Tal procedimento seria completamente idealista, um “achismo”, mais do que uma avaliação analítica séria. Ora, se nossas ideias se concretizam na realidade, é na realidade mesma que devemos buscar sua crítica. Ou seja, é na manifestação histórica, no processo social envolvido na expressão de nossas ideias, que a avaliação pode ser feita. E mesmo assim, nada disso é garantia de sucesso nessa autoavaliação. Por isso, faz-se também importante o debate de ideias, momento no qual nós contrapomos aquilo que pensamos sobre a realidade contra ela própria, criando assim condições para tal avaliação, que, mais uma vez, não possui garantia alguma de sucesso. Por isso, também, a autocrítica, assim como qualquer processo vinculado ao conhecimento, é sempre um ato contínuo, que precisa ser retomado a todo o momento.

Assim, a compreensão e o exercício dessa conjugação entre teoria e prática, entre ciência e política, permitiria orientar (mas não ao ponto de garantir absolutamente) nossa conduta para a constituição de uma prática social que eleve a condição humana para além de suas contradições mais nefastas. Essa conduta se opõe diretamaente a todo e qualquer tipo de formulação idealista, seja as mais amenas, de uma razão miserável, seja as mais recrudescidas, marcadas pela irracionalismo. Creio que essa deve ser a postura adequada na situação problemática que enfrentamos. Trata-se de um posicionamento bem definido de enfrentamento naquilo que chamamos “batalha das ideias”.

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